Minha mãe, quem é aquele pregado naquela cruz ?
Aquele, filho, é Jesus
É Deus, é quem nos cria
Quem nos manda a luz do dia
E fez a terra e os Céus
Esta inscrição num painel de azulejos colado no cruzeiro daquela terra granítica andou comigo uma vida inteira. Volta e meia vinha-me à cabeça este pequeno excerto de um poema que só recentemente soube ser da autoria de João de Deus. Não sabia quem era o autor da pequena estrofe nem tinha curiosidade em saber e, no entanto, durante anos a fio, de vez em quando, lá surgia de novo “ Minha Mãe, quem é aquele pregado naquela cruz…”
Só mais tarde percebi que o pequeno excerto do poema era a chave que abria o baú das minhas memórias de infância. Os meses de Verão passados nos vales sobranceiros à Serra da Estrela onde os dias quentes e as noites mornas, sob um manto infinito de estrelas, pareciam saídas de um livro ilustrado de histórias infantis.
Rumava à Beira Alta no início das férias do Verão com um pequeno saco de roupa e uma mala gigante cheia de planos de aventuras infindáveis. A tribo esperava-me, as águas do Mondego também, e os pássaros, e os ninhos, e aquela cabana feita de mimosas no ano anterior, e a estufa junto ao cruzeiro onde haveríamos de voltar a empanturrar-nos com os chouriços, o pão e o vinho subtraídos ao meu avô, com a fineza matreira de foragidos.
Os nomes de baptismo nada significavam, as alcunhas eram a única prova de identidade: Calhau, Piriquito, Marreco, Vitorino, Charlot, Malato. Não havia ricos ou pobres, bonitos ou feios, espertos ou burros. Hierarquias só as que se impunham naturalmente por feitos realmente importantes: “Achar” ninhos, fazer as melhores fisgas, ser listo no arremesso de pedras ás carochas que teimavam em desafiar-nos agarradas aos sobreiros.
As águas tépidas do Mondego engrossavam pelas encostas da serra e eram morada de peixes enormes que nunca víamos mas que existiam, de certeza que existiam, e um dia algum deles havia de nos calhar em sorte na cana de pesca, ou vir ao de cima de barriga para o ar com o ventre rebentado por um morteiro de foguete.
À noite executavam-se planos para aligeirar a carga do pessegueiro de alguém que na noite anterior tinha cometido o pecado mortal de se gabar, no café do Delfim, que não havia na terra árvore igual.
Os dias passavam como páginas de um livro folheadas devagar.
Mas o tempo não parou e levou consigo os risos e a inocência de uma infância feliz passada na Beira Alta, terra de Aquilino, que tão bem retratou aquelas gentes com vidas forjadas na adversidade, nas agruras e no trabalho árduo. Terra de gente franca e meninos inocentes ( não o são todos os meninos? ).
Os sorrisos brancos estampados em caras rosadas e resplandecentes deram lugar a rostos enrugados, enegrecidos pela torreira do sol. Vieram as mulheres, os filhos e os dias sem horizonte. Quase todos seguem hoje as pegadas dos pais: São pedreiros, lavradores, ou passam os dias em fábricas a executar tarefas repetidas vezes sem conta, de ritmo certo, compassado, como os ponteiros de um cronómetro. As cervejas bebidas à noite no café de sempre, dilata-lhes o ventre e liberta-os, por momentos, de uma vida que pouco mais lhes oferecerá. Os seus dedos grossos e calejados nunca escreveram em teclas de computador. Nada sabem de política ou de economia, de internet ou de acções da bolsa.
As conversas que temos hoje, nas esporádicas visitas que faço aquela terra perfumada pelas brisas descendentes da serra, resumem-se a um cumprimento vago ou a uma curta conversa que resgata ao tempo memórias dos tempos de criança.
- Lembras-te daquela noite em que estávamos todos pendurados na cerejeira do Zè Rato e ele cá em baixo a dizer que nos ia dar uma coça?
Por momentos desaparece a expressão grave daqueles rostos enrugados e os olhos voltam a iluminar-se tal como eu os lembro em criança. Contemplo-os com a ternura de um irmão que um dia se foi embora para uma grande viagem, que correu mundo e viu coisas que eles nunca viram mas nada do que fez ou viu o fez tão feliz como eles fizeram.
Talvez um dia, noutro lugar, possamos voltar a brincar em campos cobertos pelo manto das geadas de Setembro. Talvez voltemos a soltar gargalhadas inocentes de meninos abençoados por Quem nos manda a luz do dia e fez a terra e os Céus.
Aquele, filho, é Jesus
É Deus, é quem nos cria
Quem nos manda a luz do dia
E fez a terra e os Céus
Esta inscrição num painel de azulejos colado no cruzeiro daquela terra granítica andou comigo uma vida inteira. Volta e meia vinha-me à cabeça este pequeno excerto de um poema que só recentemente soube ser da autoria de João de Deus. Não sabia quem era o autor da pequena estrofe nem tinha curiosidade em saber e, no entanto, durante anos a fio, de vez em quando, lá surgia de novo “ Minha Mãe, quem é aquele pregado naquela cruz…”
Só mais tarde percebi que o pequeno excerto do poema era a chave que abria o baú das minhas memórias de infância. Os meses de Verão passados nos vales sobranceiros à Serra da Estrela onde os dias quentes e as noites mornas, sob um manto infinito de estrelas, pareciam saídas de um livro ilustrado de histórias infantis.
Rumava à Beira Alta no início das férias do Verão com um pequeno saco de roupa e uma mala gigante cheia de planos de aventuras infindáveis. A tribo esperava-me, as águas do Mondego também, e os pássaros, e os ninhos, e aquela cabana feita de mimosas no ano anterior, e a estufa junto ao cruzeiro onde haveríamos de voltar a empanturrar-nos com os chouriços, o pão e o vinho subtraídos ao meu avô, com a fineza matreira de foragidos.
Os nomes de baptismo nada significavam, as alcunhas eram a única prova de identidade: Calhau, Piriquito, Marreco, Vitorino, Charlot, Malato. Não havia ricos ou pobres, bonitos ou feios, espertos ou burros. Hierarquias só as que se impunham naturalmente por feitos realmente importantes: “Achar” ninhos, fazer as melhores fisgas, ser listo no arremesso de pedras ás carochas que teimavam em desafiar-nos agarradas aos sobreiros.
As águas tépidas do Mondego engrossavam pelas encostas da serra e eram morada de peixes enormes que nunca víamos mas que existiam, de certeza que existiam, e um dia algum deles havia de nos calhar em sorte na cana de pesca, ou vir ao de cima de barriga para o ar com o ventre rebentado por um morteiro de foguete.
À noite executavam-se planos para aligeirar a carga do pessegueiro de alguém que na noite anterior tinha cometido o pecado mortal de se gabar, no café do Delfim, que não havia na terra árvore igual.
Os dias passavam como páginas de um livro folheadas devagar.
Mas o tempo não parou e levou consigo os risos e a inocência de uma infância feliz passada na Beira Alta, terra de Aquilino, que tão bem retratou aquelas gentes com vidas forjadas na adversidade, nas agruras e no trabalho árduo. Terra de gente franca e meninos inocentes ( não o são todos os meninos? ).
Os sorrisos brancos estampados em caras rosadas e resplandecentes deram lugar a rostos enrugados, enegrecidos pela torreira do sol. Vieram as mulheres, os filhos e os dias sem horizonte. Quase todos seguem hoje as pegadas dos pais: São pedreiros, lavradores, ou passam os dias em fábricas a executar tarefas repetidas vezes sem conta, de ritmo certo, compassado, como os ponteiros de um cronómetro. As cervejas bebidas à noite no café de sempre, dilata-lhes o ventre e liberta-os, por momentos, de uma vida que pouco mais lhes oferecerá. Os seus dedos grossos e calejados nunca escreveram em teclas de computador. Nada sabem de política ou de economia, de internet ou de acções da bolsa.
As conversas que temos hoje, nas esporádicas visitas que faço aquela terra perfumada pelas brisas descendentes da serra, resumem-se a um cumprimento vago ou a uma curta conversa que resgata ao tempo memórias dos tempos de criança.
- Lembras-te daquela noite em que estávamos todos pendurados na cerejeira do Zè Rato e ele cá em baixo a dizer que nos ia dar uma coça?
Por momentos desaparece a expressão grave daqueles rostos enrugados e os olhos voltam a iluminar-se tal como eu os lembro em criança. Contemplo-os com a ternura de um irmão que um dia se foi embora para uma grande viagem, que correu mundo e viu coisas que eles nunca viram mas nada do que fez ou viu o fez tão feliz como eles fizeram.
Talvez um dia, noutro lugar, possamos voltar a brincar em campos cobertos pelo manto das geadas de Setembro. Talvez voltemos a soltar gargalhadas inocentes de meninos abençoados por Quem nos manda a luz do dia e fez a terra e os Céus.
