segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

É Natal

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Mais um Natal, mais um ano, mais votos de feliz Natal, mais desejos para o ano novo, mais promessas nunca cumpridas, mais sonhos adiados, mais prendas para uns, mais pobreza para outros, mais brilho nos olhos de uns, mais ranho no nariz de outros, mais afectos para uns, mais solidão de outros.

É Natal!

Que não percamos a lucidez e o olhar critico sobre o que nos rodeia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A idade da inocência

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Minha mãe, quem é aquele pregado naquela cruz ?
Aquele, filho, é Jesus
É Deus, é quem nos cria
Quem nos manda a luz do dia
E fez a terra e os Céus

Esta inscrição num painel de azulejos colado no cruzeiro daquela terra granítica andou comigo uma vida inteira. Volta e meia vinha-me à cabeça este pequeno excerto de um poema que só recentemente soube ser da autoria de João de Deus. Não sabia quem era o autor da pequena estrofe nem tinha curiosidade em saber e, no entanto, durante anos a fio, de vez em quando, lá surgia de novo “ Minha Mãe, quem é aquele pregado naquela cruz…”

Só mais tarde percebi que o pequeno excerto do poema era a chave que abria o baú das minhas memórias de infância. Os meses de Verão passados nos vales sobranceiros à Serra da Estrela onde os dias quentes e as noites mornas, sob um manto infinito de estrelas, pareciam saídas de um livro ilustrado de histórias infantis.

Rumava à Beira Alta no início das férias do Verão com um pequeno saco de roupa e uma mala gigante cheia de planos de aventuras infindáveis. A tribo esperava-me, as águas do Mondego também, e os pássaros, e os ninhos, e aquela cabana feita de mimosas no ano anterior, e a estufa junto ao cruzeiro onde haveríamos de voltar a empanturrar-nos com os chouriços, o pão e o vinho subtraídos ao meu avô, com a fineza matreira de foragidos.

Os nomes de baptismo nada significavam, as alcunhas eram a única prova de identidade: Calhau, Piriquito, Marreco, Vitorino, Charlot, Malato. Não havia ricos ou pobres, bonitos ou feios, espertos ou burros. Hierarquias só as que se impunham naturalmente por feitos realmente importantes: “Achar” ninhos, fazer as melhores fisgas, ser listo no arremesso de pedras ás carochas que teimavam em desafiar-nos agarradas aos sobreiros.

As águas tépidas do Mondego engrossavam pelas encostas da serra e eram morada de peixes enormes que nunca víamos mas que existiam, de certeza que existiam, e um dia algum deles havia de nos calhar em sorte na cana de pesca, ou vir ao de cima de barriga para o ar com o ventre rebentado por um morteiro de foguete.

À noite executavam-se planos para aligeirar a carga do pessegueiro de alguém que na noite anterior tinha cometido o pecado mortal de se gabar, no café do Delfim, que não havia na terra árvore igual.

Os dias passavam como páginas de um livro folheadas devagar.

Mas o tempo não parou e levou consigo os risos e a inocência de uma infância feliz passada na Beira Alta, terra de Aquilino, que tão bem retratou aquelas gentes com vidas forjadas na adversidade, nas agruras e no trabalho árduo. Terra de gente franca e meninos inocentes ( não o são todos os meninos? ).

Os sorrisos brancos estampados em caras rosadas e resplandecentes deram lugar a rostos enrugados, enegrecidos pela torreira do sol. Vieram as mulheres, os filhos e os dias sem horizonte. Quase todos seguem hoje as pegadas dos pais: São pedreiros, lavradores, ou passam os dias em fábricas a executar tarefas repetidas vezes sem conta, de ritmo certo, compassado, como os ponteiros de um cronómetro. As cervejas bebidas à noite no café de sempre, dilata-lhes o ventre e liberta-os, por momentos, de uma vida que pouco mais lhes oferecerá. Os seus dedos grossos e calejados nunca escreveram em teclas de computador. Nada sabem de política ou de economia, de internet ou de acções da bolsa.

As conversas que temos hoje, nas esporádicas visitas que faço aquela terra perfumada pelas brisas descendentes da serra, resumem-se a um cumprimento vago ou a uma curta conversa que resgata ao tempo memórias dos tempos de criança.
- Lembras-te daquela noite em que estávamos todos pendurados na cerejeira do Zè Rato e ele cá em baixo a dizer que nos ia dar uma coça?
Por momentos desaparece a expressão grave daqueles rostos enrugados e os olhos voltam a iluminar-se tal como eu os lembro em criança. Contemplo-os com a ternura de um irmão que um dia se foi embora para uma grande viagem, que correu mundo e viu coisas que eles nunca viram mas nada do que fez ou viu o fez tão feliz como eles fizeram.

Talvez um dia, noutro lugar, possamos voltar a brincar em campos cobertos pelo manto das geadas de Setembro. Talvez voltemos a soltar gargalhadas inocentes de meninos abençoados por Quem nos manda a luz do dia e fez a terra e os Céus.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

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Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.

Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Fados

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O filme "Fados" de Carlos Saura apresenta-se numa espécie de documentário musical e, mais do que uma obra centrada no fado, é uma viagem pela portugalidade. É ao mesmo tempo uma mistura de música, cor, sentimentos, emoção e do «sentir» português.
Uma obra muito interessante de um cineasta espanhol. Vale pelo que é mas, se assim não fosse, valeria por três ou quatro momentos marcantes, como o são, a recriação de uma casa de fado vadio, um dueto de Mariza com um cantor flamenco ou Chico Buarque soberbamente acompanhado por Carlos do Carmo em voz off .
Ver!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

E agora ?

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O assunto do momento é a crise, a crise económica, entenda-se! Ninguém fala da crise de valores, da crise da falta de ideias, da crise provocada pelo pensamento único baseado na busca da felicidade assente nos bens materiais, da crise de ideais, da crise do exercício da cidadania e de tantas outras crises que são, do meu ponto de vista, a raiz da outra, da crise económica.

Em momentos de aflição temos a tendência de disparar em todas as direcções e de encontrar culpados para os males que nos afectam. Importa, no entanto, reflectir um pouco e encontrar as causas profundas, e não visíveis, do problema.

A ganância e desonestidade de alguns agentes económicos, embora condenável, é uma peça de um puzzle que representa um retrato social. Esta gente gananciosa e desonesta contribuiu para alimentar uma máquina consumista de que todos fizemos parte.

Quisemos casas que não podíamos pagar, carros maiores que os do vizinho, plasmas do tamanho de ecrans de cinema, férias nas Caraíbas, PSP´s para os nossos filhos, telemóveis de última geração e outros sinais que nos garantiam status social e acesso ao grupo da frente, dos ricos, dos elegantes, dos charmosos. Falar de valores passou a ser embaraçoso e “meio estranho”, falar do Blackberry, isso sim, é viver neste mundo global, pós-moderno, onde se respira bem estar e prosperidade, onde a possibilidade de aparecer numa qualquer revista cor de rosa pode estar mesmo ali, ao virar da esquina. O crédito fácil e relativamente barato foi o passaporte outorgado e carimbado para este conto de fadas.

Vendo-nos ávidos de consumo, o sistema encarregou-se de nos satisfazer. Nós pedimos, eles deram. Só que o sistema colapsou e, ou muito me engano, ou vivemos momentos de mudança de paradigma social. Tão depressa as coisas não voltarão a ser como eram. É melhor que nos habituemos à ideia.
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Cego é o que não quer ver

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Naquele que é um dos meus programas televisivos favoritos, “O eixo do mal”, vi um dos comentadores residentes defender que a crise económica mundial - com origem no capitalismo selvagem desregulado e na ganância de gestores desonestos que já levou à falência de um colosso financeiro e promete arrastar outras mega-companhias caso não haja mais intervenção do estado - mais não é do que um processo normal de rejuvenescimento e auto regeneração do modelo capitalista liberal.

Só alguém com a total ausência de bom senso pode achar que a intervenção dos governos recorrendo a dinheiro dos contribuintes para salvar empresas da falência por má gestão é um processo normal de ajustamento do mercado.

Está mais do que provado que até à data, mesmo com as suas imperfeições, nenhum outro sistema económico trouxe maior prosperidade à humanidade que o capitalismo. Daí até à cegueira desta gente vai, no entanto, uma distância enorme.

Se o caso não fosse tão sério e não nos afectasse a todos, directa ou indirectamente, até teria a sua graça ver esta gente defender a privatização dos prejuízos das empresas. Tudo isto com o dinheiro dos impostos.

Adam Smith, are you there ?

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Este tipo tem graça

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«A woman is an occasional pleasure but a cigar is always a smoke.»

«I find television very educating. Every time somebody turns on the set, I go into the other room and read a book.»

«Behind every successful man is a woman, behind her is his wife.»

«I never forget a face, but in your case I'll be glad to make an exception.»


Groucho Marx

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Avanço tecnológico ou atraso intelectual ?

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O novo iPhone da Apple foi posto à venda e em 3 horas vendeu 1.000.000 de unidades em todo o mundo.

Em alguns países foi necessária a intervenção policial para conter os desacatos provocados por compradores que se atropelavam na tentativa de passar uns à frente dos outros para comprar o "Gadget".

O avanço tecnológico conseguido nas últimas decadas parece ser directamente proporcional ao atraso intelectual patente em determinados comportamentos sociais.

Esta gente vota !
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quinta-feira, 10 de julho de 2008

Os meus anos

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Esta semana fiz anos.

Para muitos o aniversário é motivo de celebração, de festa, é um pretexto de reunião com os amigos. Para outros é um dia triste porque lhes lembra uma verdade incontornável: Estão mais velhos.

Confesso que fazer anos não me provoca grandes assomos de reflexão ou frenesi festivo. É um dia agradável porque lhe está associado o contacto de familiares e amigos que nos felicitam, alguns que, infelizmente, raramente vemos porque andamos demasiado ocupados com coisas menores e não damos importância ás coisas que realmente interessam e deveriam ser prioridade. Neste dia lembro-me também da minha infância e da alegria de fazer anos porque lhe estava associado a palavra mágica para qualquer criança: Prendas.

Hoje a importância das prendas deu lugar à importância das manifestações de afecto. No dia dos meus anos, a voz estridente e descompassada das minhas filhas a cantarem-me os parabéns ás oito da manhã , superou o momento mágico daquele dia em que recebi a pistola de fulminantes igual à do Bonanza.

Quanto ao resto, deixo que o tempo faça o seu percurso e o seu trabalho. Que esculpa o meu rosto e o meu corpo, que me traga mais alegrias que tristezas e me permita encarar o passar dos anos com naturalidade.

Na terça-feira voltei a ouvir aquela canção fantástica do António Variações:

Vou viver
Até quando eu não sei
Não me interessa o que serei
Quero é viver

Amanhã
Sei que há sempre um amanhã
E acredito que será
Mais um prazer

quinta-feira, 3 de julho de 2008

"A morte saiu à rua num dia assim"

O refrão da música de José Afonso faz-me sempre pensar em tragédia, em sofrimento, em dor.

Foi dela que me lembrei ontem ao recordar a história trágica da notícia que se segue. Acho que todo o ser humano tem um lado obscuro e é capaz de coisas que não imagina mas há demónios que só se podem soltar quando já se apoderaram completamente da alma de alguém.

« Em fevereiro, Carlos Daniel, de dois anos, foi agredido pela mãe, de 21 anos, e o padrasto, de 26 anos. A criança deu entrada no hospital com traumatismos graves na cabeça e abdómen, lesões nos olhos e o braço esquerdo partido.

Hoje, Daniel é cego, surdo e tetraplégico.

O pai de daniel foi condenado a pena única de sete anos, pelos crimes de maus tratos e de ofensa à integridade física qualificada e agravada. A mãe do menino foi condenada a um ano e seis meses de prisão, com pena suspensa.

A juíza afirmou, no final da sessão, que no exercício da sua profissão nunca viu agressões deste género, muito menos sobre uma criança.»

Sic notícias Jul´08

terça-feira, 24 de junho de 2008

Carta a Vale e Azevedo


Caro João,

Espero que te encontres bem e de saúde em terras de Sua Majestade. A julgar pelas fotos de jornal, continuas bem. Um pouco anafado, é certo, mas com aspecto saudável e bem disposto.

Quero dizer-te que és o orgulho de todos nós portugueses, és símbolo maior da diáspora, um autêntico caso de sucesso daqueles de que todos nos orgulhamos. Dá gosto ver os nossos emigrantes vingar, ainda por cima, numa sociedade tão competitiva como a inglesa.

Há por aqui quem diga mal de ti, que não és um homem sério, que fizeste muitas falcatruas e outros impropérios típicos de um país de invejosos que não podem ver um homem de camisa lavada ( principalmente se for de marca ). Decerto não imaginam, como eu imagino, o que terás tu passado para chegar onde chegaste. Imagino-te a trabalhar num daqueles empregos que ninguém quer, sem saber falar a língua dos bifes, a passar por muitas privações mas sempre focado no objectivo de um dia seres uma pessoa rica e importante.

Agora, lá porque vives numa mansão de 15 Milhões de euros ao lado do Abramovich e tens um Bentley de 350 Mil euros igual ao da Rainha, que de certeza te custou muito a ganhar, toca de dizer raios e coriscos da tua pessoa.

Ingratos, é o que é!

Se não fossem os emigrantes que alcançam sucesso além fronteiras, como o Mourinho, o Cristiano Ronaldo e agora tu, este pobre país nem o galo de Barcelos conseguiria afirmar como imagem de marca no exterior.

Para que saibas e não desanimes, há muita gente aqui em solo pátrio a torcer por ti porque, apesar de não terem emigrado como tu, também se fartaram de trabalhar para serem ricos.
É claro que também sofrem dos mesmos ataques infames: Dizem por aí que beneficiam das negociatas obscuras, que são corruptos, que se servem da política em benefício próprio e até, imagina, que cometem crimes puníveis com penas de prisão mas que nada lhes acontece.

O que dizer de tudo isto, caro João, se não que são uma corja de invejosos?

Estou certo que continuarás a dar o melhor por ti próprio e pela imagem de Portugal no estrangeiro.

Força, João! A rapaziada segue atenta o teu sucesso.

sábado, 21 de junho de 2008




Chegasse enfim a coragem

Pediria ao vento norte
Ás sereias de Ulisses
Que levassem meu clamor
Para dizer aos que me amam
Tudo o que não lhes disse

Chegasse enfim a coragem

E correria o mundo sem mapa e sem destino,
Sem horas ou compromisso,
Sem antes ou depois, só isso!

Chegasse enfim a coragem

E era o herói por um dia,
Cerrava os olhos molhados
De lágrimas de alegria
E diria, diria

Diria que o amor,
Que as palavras não dizem
Não é vão, é clausura
É sentimento contido
É fogo, ardor, amargura

Chegasse enfim a coragem

Para libertar meu grito
Soltar de vez meu lamento
E dizer-vos que o amor é sorte
Que me libertará do tormento

Chegasse enfim a coragem

De dizer aos que me querem
Que os silêncios são chama
Fogo que me consome
Gelo que a voz tolhe
Muros a quem me ama

Chegasse enfim a coragem

De libertar minha pena
De escrever ébrias estrofes
Nunca ditas mas sofridas
Cantadas p´ra ti num poema


Carlos Borges - Jun´08

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Despudor

Consta que um dia um alto quadro da General Motors falou com o presidente da Companhia acerca da contratação de um executivo. O homem tinha altas qualificações académicas, um curriculum extraordinário e um QI elevadíssimo. Havia um pequeno problema com este executivo: Tinha uma personalidade especial e o relacionamento com os outros não era fácil. O presidente da GM terá então respondido:

- Meu caro, esse senhor não nos interessa porque este negócio é feito por pessoas e, alguém que não se consegue relacionar com elas, não pode trabalhar aqui.

Esta pequena história ilustra uma das facetas de um gestor: O bom senso. Sem bom senso não é possível dirigir por mais competências técnicas que se possuam.

A proposta da ERSE para que o valor das facturas incobradas pela EDP sejam diluídas nas facturas dos clientes bons pagadores é de tal forma ridícula e desprovida de bom senso que, só o facto de alguém se ter lembrado do o propor, deveria dar lugar ao seu despedimento por total incapacidade para ocupar o lugar que ocupa. É uma ideia peregrina que revela despudor e um total desprezo pelos consumidores. Esta gente é a mesma a quem pagamos salários principescos e indemnizações indecorosas quando se vão embora.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Simples mas bonito, como o são as coisas simples

Poema do Homem Só

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

Rómulo de Carvalho sob pseudónimo de António Gedeão

quinta-feira, 12 de junho de 2008

terça-feira, 3 de junho de 2008

Viver

Numa entrevista ao “Expresso”, Sobrinho Simões, um dos mais destacados investigadores portugueses na área das ciências médicas, afirmou que vivemos mais do que devíamos. Ao que parece o ser humano não foi “programado” para viver tanto tempo e só os avanços da medicina permitiram prolongar a nossa longevidade para além dos limites que a natureza nos impôs. No entanto, segundo o investigador, ao tentar adiar o inevitável, a ciência abre caminho a uma espécie de «morte em vida» porque, se é possível evitar completamente a dor física e até prolongar a vida, não é possível eliminar a dor psicológica de alguém que, apesar de estar vivo, perde mobilidade ou vê as suas capacidades cognitivas diminuídas de tal forma que o adiamento da morte lhe traz outra forma de sofrimento.

A inevitabilidade de um ponto final nas nossas vidas é algo que nos assusta. Evitamos pensar no assunto para não vivermos angustiados. A morte só toca na porta ao lado, nunca na nossa, e quando nos vemos ao espelho não reconhecemos que envelhecemos. Só que não há volta a dar: O tempo faz de nós o que quer e a única coisa que podemos fazer com ele é aproveitá-lo. Estamos condenados a viver a única vida que temos e por isso só nos resta desfrutar dela ao máximo. É a única parte que nos compete, o resto é com a natureza.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Dois mundos

O Real Madrid propõe-se pagar a Cristiano Ronaldo 82 Mil euros por dia! É o mercado a funcionar, dizem. O valor é astronómico e contrasta com as duras realidades que todos conhecemos um pouco por todo o mundo, Portugal incluído. Ronaldo não tem culpa nem tem que se sentir culpado. É o que lhe propõem e não lhe compete a ele salvar o mundo ou torná-lo mais justo. Outra coisa é o que pode fazer com o dinheiro e se utiliza, ou não, parte dele para ajudar os outros. São questões éticas e de consciência que a cada um dizem respeito.

A questão principal é a de sabermos como chegámos até aqui e onde isto nos vai levar. Há qualquer coisa de irracional na nossa sociedade e um dia esta irracionalidade vai ter consequências. Tive um professor na faculdade, Adriano Moreira, que costumava dizer : “Se os ricos não se preocuparem com a saúde dos pobres, um dia os pobres tratam da saúde aos ricos”. Vinda de um dos mais brilhantes pensadores portugueses, a frase dá que pensar.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Filme de culto

Blade Runner está novamente nos cinemas ( em Lisboa apenas no Corte Inglês ) numa versão remasterizada. Estreou há mais de 20 anos. Vi-o na altura e nunca mais esqueci esta magnífica obra cinematográfica de Ridley Scott que ficará para sempre na história do cinema. Altamente recomendado..

terça-feira, 27 de maio de 2008

Nós e os outros

Vivem-se tempos conturbados. As televisões e os jornais não param de nos lembrar que vivemos num mundo desequilibrado, perigoso, injusto e instável. É a crise das fontes energéticas, a escassez dos alimentos, os conflitos que proliferam em várias zonas do globo, os problemas ambientais, as catástrofes naturais, a violência urbana e um rol de outras maleitas que afectam o mundo.

Portugal não escapa aos males globais. Se é verdade que não sofremos do principal e mais tenebroso problema de todos, a guerra, e se temos sido poupados ás fúrias da natureza, temos outras razões para nos preocuparmos.

Seria portanto de esperar que, na adversidade, nos tornássemos mais interventivos, mais exigentes, sobretudo com nós próprios, e também mais solidários. Deveríamos reagir com mais empenho no nosso dia a dia para podermos ser mais exigentes com os outros, sobretudo com os que nos governam. Deveríamos ser mais participativos na coisa pública, pelo menos através do voto em altura própria, acto de que muitos abdicam regularmente.

A letargia geral em que mergulhámos é apenas episodicamente interrompida por uma gritaria histérica em tempos de crise que depressa se esfuma assim que um paliativo político nos resolve os problemas imediatos, quase sempre, adiando-os para mais tarde.

Portugal vive numa espécie de coma induzido. A doença é o desânimo e os fármacos para a amenizar são os acontecimentos sociais e desportivos do momento. As revistas cor-de-rosa são a leitura preferida da maioria e os programas televisivos, de uma pobreza franciscana, proporcionam felizes serões em família. Os noticiários e os programas de informação são interrompidos a cada dez minutos porque chegou mais um jogador da selecção ao aeroporto ou porque o seleccionador nacional se irritou com um jornalista. A política dá lugar à politiquice quando o primeiro-ministro fuma dentro de um avião e logo promete deixar de fumar (facto importante para as nossas vidas e para os nossos problemas!). Os concursos deprimentes e as telenovelas ocupam horário nobre nas televisões.

De pouco nos importam os milhares de mortos provocados por catástrofes naturais em Myanmar e na China, o espancamento até à morte de emigrantes moçambicanos na África do Sul ou a catástrofe humanitária no Darfur que condena milhares de pessoas, sobretudo crianças, a morrer à fome. Estes não são motivos de conversa de café em Portugal.

A banalidade e o egoísmo andam de mãos dadas e asfixiam-nos enquanto sociedade e o pior é que os sintomas se agravam. Se é verdade que nos últimos 30 anos aumentámos de forma assinalável o nosso nível académico, não crescemos proporcionalmente em educação cívica. Uma e outra coisa são diferentes e não dependentes.

Lembro-me de crescer num bairro de Lisboa onde conhecia grande parte das pessoas, pelo menos a maioria das que moravam na minha rua e, claro está, todas as do meu prédio. Lembro-me da minha mãe pedir ás vizinhas um qualquer condimento para a comida suprindo assim uma falta de última hora, acto retribuído amiúde pela Dona Lurdes, pela Dona Manuela ou pela menina Luísa ( trato curioso mas comum na época ).

Hoje vivo num prédio e, além do bom dia e boa tarde ditados pelas regras de boa educação ou os encontros nem sempre pacíficos nas reuniões de condóminos, pouco mais se alonga o diálogo com os meus vizinhos.

O que tem isto a ver com a falta de interesse pelas questões sociais ou pela política? O que tem a ver com a banalidade e egocentrismo que se apoderou de nós? Tudo.

Estamos cada vez mais fechados dentro do nosso arco social onde cabem as nossas famílias e os nossos amigos. Somos capazes de muito para manter firme e coeso o círculo. O que se passa fora dele não é problema nosso nem nos diz respeito. Se uns tipos se andam a matar em África é lá com eles. Se acabou a salsa ao vizinho, que fosse mais organizado e tivesse feito uma lista de compras numa folha Exel.

Chama-se "Sempre de Mim" e recomenda-se. Novo álbum de Camané com poesias de Fernando Pessoa, Pedro Home de Mello, David Mourão-Ferreira

Músicas de uma vida ( uma letra fantástica )



THUNDER ROAD ( Bruce Springsteen )

The screen door slams, Mary's dress waves
Like a vision she dances across the porch as the radio plays
Roy Orbison singing for the lonely
Hey, that's me and I want you only
Don't turn me home again, I just can't face myself alone again
Don't run back inside, darling, you know just what I'm here for
So you're scared and you're thinking that maybe we ain't that young anymore
Show a little faith, there's magic in the night
You ain't a beauty but, hey, you're alright
Oh, and that's alright with me

You can hide 'neath your covers and study your pain
Make crosses from your lovers, throw roses in the rain
Waste your summer praying in vain
For a savior to rise from these streets
Well now, I ain't no hero, that's understood
All the redemption I can offer, girl, is beneath this dirty hood
With a chance to make it good somehow
Hey, what else can we do now?
Except roll down the window and let the wind blow back your hair
Well, the night's busting open, these two lanes will take us anywhere
We got one last chance to make it real
To trade in these wings on some wheels
Climb in back, heaven's waiting on down the tracks

Oh oh, come take my hand
We're riding out tonight to case the promised land
Oh oh oh oh, Thunder Road
Oh, Thunder Road, oh, Thunder Road
Lying out there like a killer in the sun
Hey, I know it's late, we can make it if we run
Oh oh oh oh, Thunder Road
Sit tight, take hold, Thunder Road

Well, I got this guitar and I learned how to make it talk
And my car's out back if you're ready to take that long walk
From your front porch to my front seat
The door's open but the ride ain't free
And I know you're lonely for words that I ain't spoken
But tonight we'll be free, all the promises'll be broken

There were ghosts in the eyes of all the boys you sent away
They haunt this dusty beach road in the skeleton frames of burned-out Chevrolets
They scream your name at night in the street
Your graduation gown lies in rags at their feet
And in the lonely cool before dawn
You hear their engines rolling on
But when you get to the porch, they're gone on the wind
So Mary, climb in
It's a town full of losers, I'm pulling out of here to win

sábado, 24 de maio de 2008

Rir (ainda) não paga imposto

Dizem que o rei cruel do Averno (inferno) imundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para meter no cu na aberta greta
A quem não foder bem cá neste mundo:

Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixai essas lições, sabida peta,
Foda-se a salvo, coma-se a punheta:
Este prazer da vida mais jucundo.

Se pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras,
Senão para foder com liberdade?

Fodam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto já; que é curta a idade,
E as horas do prazer voam ligeiras!

In Poesias éróticas, burlescas e satíricas, Barbosa du Bocage

terça-feira, 20 de maio de 2008

Lisboa

Segunda-feira.
Sento-me na «Benard», no chiado, e observo a azáfama da massa humana que sobe e desce a Rua Garrett. À minha frente a loja «Paris em Lisboa» exibe a sua bela fachada do início do século passado como uma foto a preto e branco esbatida pelo passar dos anos. Junto à montra um engraxador espera, absorto, por algum cliente, enquanto a ponta final de um cigarro lhe amarelece ainda mais os dedos das mãos. Ao meu lado um casal de franceses permanece num silêncio cúmplice e acena simpaticamente com a cabeça à investida de um rapaz com postais na mão que lhes pede uma moeda. Ela usa uma flor branca na parte de trás do cabelo, a condizer com a palidez do seu rosto onde sobressai apenas o vermelho vivo do baton. Um conhecido homem de negócios, com um fato de risca impecavelmente aprumado, acompanhado por uma mulher elegante, contrasta com o ar desalinhado de um actor de teatro que desce a rua. Um acordeão resiste ao burburinho e repete, incessante, o refrão de uma música popular que parece marcar o passo de um vai e vem de gente que não pára.

Termino o café, subo em direcção ao largo Camões e avisto o Tejo, sereno e majestoso. Lisboa debruça-se sobre o seu rio numa espécie de cumplicidade que lhes realça a beleza. O dia está um pouco enublado mas apesar disso o brilho de um sol tímido dá a Lisboa uma luminosidade que a torna diferente de qualquer outra cidade.

Os edifícios pombalinos com as fachadas escurecidas pelo tempo e pelo fumo dos automóveis apresentam-se como fidalgos sem fortuna mas com a altivez de quem preserva a sua dignidade.

Em Lisboa tudo se afigura como num palco através dos tempos: Mudam os actores, mudam os cenários e as histórias mas o palco permanece imóvel à espera de novos personagens. Lisboa é assim: Serena, bela, indiferente a quem passa, apenas aconchegada no seu rio.

Lisboa é bela, porque o é, e porque é nossa.

Lisboa é eterna.

terça-feira, 13 de maio de 2008

QUEM VÊ TÊVÊ

No início dos anos 80 havia um grupo de música pop, os Táxi, que cantavam uma música cujo refrão era bastante sugestivo:” quem vê TV sofre mais que no WC”. Confesso que cada vez vejo menos televisão mas de quando em vez lá ligo a caixa e dedico-me ao desporto nacional: O zapping.
Ontem à noite foi o que fiz. Depois do circuito habitual detive-me por alguns minutos no canal 1 da RTP a ver o prós-e-contras. Parece que o tema era a corrupção no futebol. Convidados; o Major Valentim e mais uns quantos representantes das lides futebolísticas.
O autarca de Gondomar berrava e esbracejava com vigor enquanto a audiência soltava gargalhadas de contentamento pela performance do homem. Foi então que me lembrei da música dos Táxi e lembrei-me também das viagens de trabalho que fiz ao estrangeiro. Normalmente antes de me deitar ligava a televisão do quarto do hotel e visionava os canais locais mesmo que a língua me fosse adversa. Era uma forma de saber um pouco mais sobre os hábitos do autóctones. Ontem pus-me a imaginar um estrangeiro num quarto de hotel em Portugal a ligar a televisão no canal 1 e o que pensaria ele que estava a acontecer. Acho que colocaria várias hipóteses:
- Tratava-se de um programa humorístico e aqueles senhores eram actores.
- Era um talk show de um canal generalista privado que consistia em colocar frente a frente vizinhos com queixas uns dos outros.
- Eram convidados representantes de duas organizações oponentes do médio oriente e aquele senhor que estava aos gritos era representante da Fatah e jurava perseguir e matar todos os infiéis.
- Era um cidadão desesperado com a lentidão da justiça portuguesa que tinha decidido invadir as instalações de um canal de televisão num programa em directo.
Acho que o tal cidadão estrangeiro não colocaria a hipótese de se tratar de um programa de informação cujo protagonista é presidente de uma câmara, ex presidente de um clube de futebol da primeira divisão, membro relevante de um dos principais partidos políticos, ex-presidente de uma empresa pública do Porto e ex presidente do principal organismo regulador do futebol em Portugal. Ah… e que tudo isto se passava num canal público de televisão paga por todos nós.

domingo, 11 de maio de 2008

PORQUÊ UM BLOG

Porquê e para quê um Blogue?
Confesso, amigo(a) leitor(a), que enquanto escrevo estas linhas eu próprio me interrogo dos propósitos do dito. Talvez seja uma forma de comunicar com aqueles de quem gosto mas dos quais estou afastado pelas mais diversas razões. É algo que se assemelha ao envio de um postal de um país remoto; Talvez não tenhamos tempo para receber uma resposta porque seguimos viagem mas sabemos que alguém gostou de receber notícias nossas.

DIVA



Há vozes com uma estética própria que são como uma impressão digital,inconfundíveis. Num país marcado pela mediania, a qualidade surge como uma lufada de ar fresco

FRASE DE SEMANA

António Mexia, que comanda os destinos da EDP, referiu-se assim ao facto de a adminstração da eléctrica nacional ter sido aumentada em mais de 100% enquanto os seus funcionários receberam um aumento salarial de aprox. 2,5%. "Os valores pagos ao conselho de administração da EDP estão até abaixo do que é praticado nas empresas que constituem o PSI20... mas não me queixo " (risos).
Recorde-se que António Mexia pode ganhar 4,2 milhões de euros em 3 anos à frente da EDP

sábado, 10 de maio de 2008

O MONSTRO

Todos os dias nos chegam mais notícias acerca da escassez de alimentos e do consequente aumento de preços de bens essenciais como o pão, o leite e a carne, entre outros. Os políticos dizem-nos que a culpa é do mau ano agrícola em algumas regiões do globo, do aumento do consumo a nível mundial ( parece que os chineses desataram a comer carne ) e ainda que existe alguma especulação.

Quer-me parecer que o maior problema reside precisamente neste último factor, embora aos políticos não lhes convenha afirmá-lo porque é demonstrativo da sua incapacidade para travar a voracidade da economia selvagem que eles próprios ajudaram a criar.

Pagámos (sim, fomos nós todos que pagámos) aos agricultores para não produzir, pagámos para destruir frotas de pesca, incentivou-se a especialização na produção agrícola em vez da diversificação. Com estas políticas de concentração permitiu-se, por um lado uma maior vulnerabilidade aos caprichos incontroláveis da natureza e por outro que se tornasse apetecível aos especuladores entrar num sector que até agora lhes passava ao lado porque não era rentável.
Apresenta-se cada vez mais como uma inevitabilidade o facto de sermos controlados por especuladores sem escrúpulos, seja no petróleo, no gás, no leite ou no pão. Alimentaram a besta e agora andam ás voltas para encontrar a forma de lidar com ela. Talvez se abra uma janela de oportunidades para que entendam de uma vez por todas os riscos de subverter as regras da hierarquia entre política e economia

VELHICE




Quando era miúdo o meu pai costumava brindar-me com esta verdade Lapaliciana: “Ninguém gosta de ser velho mas todos querem lá chegar”. É um facto que todos queremos prolongar a nossa existência mas também é verdade que se torna cada vez mais difícil ser-se velho, nomeadamente em Portugal. Todos dizemos o politicamente correcto quando abordamos a questão da velhice: Que a forma como são tratados os velhos diz muito sobre as sociedades, que os mais velhos têm uma sabedoria que deve ser aproveitada, que não os devemos descartar, que podem ter um papel activo na sociedade, etc. A verdade é outra e é crua: Encaramos os velhos como um fardo!

Sempre gostei de falar com pessoas mais velhas, de ouvir histórias de vida, algumas alegres, felizes e outras bem tristes, marcadas por fatalidades e desilusões. São experiências partilhadas por aqueles que um dia sonharam que seriam algo diferente daquilo em que se tornaram.

É o sonho de sermos felizes e de ainda alcançarmos os nossos objectivos que nos mantém vivos. Pergunto-me que sonhos e objectivos poderá ainda ter o velho que me aborda no semáforo para me pedir esmola; Conseguir obter o mínimo para sobreviver mais um dia?

É uma triste sociedade aquela em que vivemos que não é capaz de garantir uma velhice com o mínimo de dignidade aqueles que um dia, provavelmente, também tiveram uma família, um trabalho e sonhos... como nós.

ANJOS

A vida é uma permanente busca da felicidade. Independentemente do que isso possa significar para cada um, é um paradigma da condição humana. Quase sempre nos esquecemos que as coisas melhores da vida estão perto de nós e são grátis.

AFINAL HAVIA OBJECTIVOS PARA 2008 NA ASAE : 2 detenções,8 processos crime,61 contra-ordenações, 6 suspensões (objectivos por inspector)

Será que aquele tipo da ASAE quando andava na escola primária era aquele da turma que era gozado e levava carolos dos outros meninos e, logo aí, jurou vingança?

sexta-feira, 9 de maio de 2008

PARA AQUELES QUE HÁ CINCO SÉCULOS NOS DEIXARAM UM LEGADO DE CORAGEM E DETERMINAÇÃO

Alma Lusa

És mulher coragem, brava marinheira
Mãe da tribo lusa, gente assaz ousada
Não queres saber de que outra maneira
Podes tu amar e ousar ser amada

És branca, mulata, roliça crioula
Abraçaste o mundo com força em teu peito
Melancólico fado que em nós entoa
Lá longe orgulhosos cantamos teus feitos

Por terras distantes e moiras paragens
Entoou o vento o teu nobre canto
Por mares revoltos levaste a mensagem
De ancestrais avós herdaste o encanto

Em duro granito do meu solo pátrio
Vou esculpir teu nome com fino cinzel
Choram guitarras e o teu povo sábio
É orgulho o que sentem, lá vai teu batel

Eu grito teu nome, eu te proclamo
Minha Pátria bela, cântico de musa
É a ti que eu quero, é a ti que eu amo
É em ti que eu repouso minha alma lusa

Carlos Borges