Vivem-se tempos conturbados. As televisões e os jornais não param de nos lembrar que vivemos num mundo desequilibrado, perigoso, injusto e instável. É a crise das fontes energéticas, a escassez dos alimentos, os conflitos que proliferam em várias zonas do globo, os problemas ambientais, as catástrofes naturais, a violência urbana e um rol de outras maleitas que afectam o mundo.
Portugal não escapa aos males globais. Se é verdade que não sofremos do principal e mais tenebroso problema de todos, a guerra, e se temos sido poupados ás fúrias da natureza, temos outras razões para nos preocuparmos.
Seria portanto de esperar que, na adversidade, nos tornássemos mais interventivos, mais exigentes, sobretudo com nós próprios, e também mais solidários. Deveríamos reagir com mais empenho no nosso dia a dia para podermos ser mais exigentes com os outros, sobretudo com os que nos governam. Deveríamos ser mais participativos na coisa pública, pelo menos através do voto em altura própria, acto de que muitos abdicam regularmente.
A letargia geral em que mergulhámos é apenas episodicamente interrompida por uma gritaria histérica em tempos de crise que depressa se esfuma assim que um paliativo político nos resolve os problemas imediatos, quase sempre, adiando-os para mais tarde.
Portugal vive numa espécie de coma induzido. A doença é o desânimo e os fármacos para a amenizar são os acontecimentos sociais e desportivos do momento. As revistas cor-de-rosa são a leitura preferida da maioria e os programas televisivos, de uma pobreza franciscana, proporcionam felizes serões em família. Os noticiários e os programas de informação são interrompidos a cada dez minutos porque chegou mais um jogador da selecção ao aeroporto ou porque o seleccionador nacional se irritou com um jornalista. A política dá lugar à politiquice quando o primeiro-ministro fuma dentro de um avião e logo promete deixar de fumar (facto importante para as nossas vidas e para os nossos problemas!). Os concursos deprimentes e as telenovelas ocupam horário nobre nas televisões.
De pouco nos importam os milhares de mortos provocados por catástrofes naturais em Myanmar e na China, o espancamento até à morte de emigrantes moçambicanos na África do Sul ou a catástrofe humanitária no Darfur que condena milhares de pessoas, sobretudo crianças, a morrer à fome. Estes não são motivos de conversa de café em Portugal.
A banalidade e o egoísmo andam de mãos dadas e asfixiam-nos enquanto sociedade e o pior é que os sintomas se agravam. Se é verdade que nos últimos 30 anos aumentámos de forma assinalável o nosso nível académico, não crescemos proporcionalmente em educação cívica. Uma e outra coisa são diferentes e não dependentes.
Lembro-me de crescer num bairro de Lisboa onde conhecia grande parte das pessoas, pelo menos a maioria das que moravam na minha rua e, claro está, todas as do meu prédio. Lembro-me da minha mãe pedir ás vizinhas um qualquer condimento para a comida suprindo assim uma falta de última hora, acto retribuído amiúde pela Dona Lurdes, pela Dona Manuela ou pela menina Luísa ( trato curioso mas comum na época ).
Hoje vivo num prédio e, além do bom dia e boa tarde ditados pelas regras de boa educação ou os encontros nem sempre pacíficos nas reuniões de condóminos, pouco mais se alonga o diálogo com os meus vizinhos.
O que tem isto a ver com a falta de interesse pelas questões sociais ou pela política? O que tem a ver com a banalidade e egocentrismo que se apoderou de nós? Tudo.
Estamos cada vez mais fechados dentro do nosso arco social onde cabem as nossas famílias e os nossos amigos. Somos capazes de muito para manter firme e coeso o círculo. O que se passa fora dele não é problema nosso nem nos diz respeito. Se uns tipos se andam a matar em África é lá com eles. Se acabou a salsa ao vizinho, que fosse mais organizado e tivesse feito uma lista de compras numa folha Exel.
Portugal não escapa aos males globais. Se é verdade que não sofremos do principal e mais tenebroso problema de todos, a guerra, e se temos sido poupados ás fúrias da natureza, temos outras razões para nos preocuparmos.
Seria portanto de esperar que, na adversidade, nos tornássemos mais interventivos, mais exigentes, sobretudo com nós próprios, e também mais solidários. Deveríamos reagir com mais empenho no nosso dia a dia para podermos ser mais exigentes com os outros, sobretudo com os que nos governam. Deveríamos ser mais participativos na coisa pública, pelo menos através do voto em altura própria, acto de que muitos abdicam regularmente.
A letargia geral em que mergulhámos é apenas episodicamente interrompida por uma gritaria histérica em tempos de crise que depressa se esfuma assim que um paliativo político nos resolve os problemas imediatos, quase sempre, adiando-os para mais tarde.
Portugal vive numa espécie de coma induzido. A doença é o desânimo e os fármacos para a amenizar são os acontecimentos sociais e desportivos do momento. As revistas cor-de-rosa são a leitura preferida da maioria e os programas televisivos, de uma pobreza franciscana, proporcionam felizes serões em família. Os noticiários e os programas de informação são interrompidos a cada dez minutos porque chegou mais um jogador da selecção ao aeroporto ou porque o seleccionador nacional se irritou com um jornalista. A política dá lugar à politiquice quando o primeiro-ministro fuma dentro de um avião e logo promete deixar de fumar (facto importante para as nossas vidas e para os nossos problemas!). Os concursos deprimentes e as telenovelas ocupam horário nobre nas televisões.
De pouco nos importam os milhares de mortos provocados por catástrofes naturais em Myanmar e na China, o espancamento até à morte de emigrantes moçambicanos na África do Sul ou a catástrofe humanitária no Darfur que condena milhares de pessoas, sobretudo crianças, a morrer à fome. Estes não são motivos de conversa de café em Portugal.
A banalidade e o egoísmo andam de mãos dadas e asfixiam-nos enquanto sociedade e o pior é que os sintomas se agravam. Se é verdade que nos últimos 30 anos aumentámos de forma assinalável o nosso nível académico, não crescemos proporcionalmente em educação cívica. Uma e outra coisa são diferentes e não dependentes.
Lembro-me de crescer num bairro de Lisboa onde conhecia grande parte das pessoas, pelo menos a maioria das que moravam na minha rua e, claro está, todas as do meu prédio. Lembro-me da minha mãe pedir ás vizinhas um qualquer condimento para a comida suprindo assim uma falta de última hora, acto retribuído amiúde pela Dona Lurdes, pela Dona Manuela ou pela menina Luísa ( trato curioso mas comum na época ).
Hoje vivo num prédio e, além do bom dia e boa tarde ditados pelas regras de boa educação ou os encontros nem sempre pacíficos nas reuniões de condóminos, pouco mais se alonga o diálogo com os meus vizinhos.
O que tem isto a ver com a falta de interesse pelas questões sociais ou pela política? O que tem a ver com a banalidade e egocentrismo que se apoderou de nós? Tudo.
Estamos cada vez mais fechados dentro do nosso arco social onde cabem as nossas famílias e os nossos amigos. Somos capazes de muito para manter firme e coeso o círculo. O que se passa fora dele não é problema nosso nem nos diz respeito. Se uns tipos se andam a matar em África é lá com eles. Se acabou a salsa ao vizinho, que fosse mais organizado e tivesse feito uma lista de compras numa folha Exel.

