terça-feira, 24 de junho de 2008

Carta a Vale e Azevedo


Caro João,

Espero que te encontres bem e de saúde em terras de Sua Majestade. A julgar pelas fotos de jornal, continuas bem. Um pouco anafado, é certo, mas com aspecto saudável e bem disposto.

Quero dizer-te que és o orgulho de todos nós portugueses, és símbolo maior da diáspora, um autêntico caso de sucesso daqueles de que todos nos orgulhamos. Dá gosto ver os nossos emigrantes vingar, ainda por cima, numa sociedade tão competitiva como a inglesa.

Há por aqui quem diga mal de ti, que não és um homem sério, que fizeste muitas falcatruas e outros impropérios típicos de um país de invejosos que não podem ver um homem de camisa lavada ( principalmente se for de marca ). Decerto não imaginam, como eu imagino, o que terás tu passado para chegar onde chegaste. Imagino-te a trabalhar num daqueles empregos que ninguém quer, sem saber falar a língua dos bifes, a passar por muitas privações mas sempre focado no objectivo de um dia seres uma pessoa rica e importante.

Agora, lá porque vives numa mansão de 15 Milhões de euros ao lado do Abramovich e tens um Bentley de 350 Mil euros igual ao da Rainha, que de certeza te custou muito a ganhar, toca de dizer raios e coriscos da tua pessoa.

Ingratos, é o que é!

Se não fossem os emigrantes que alcançam sucesso além fronteiras, como o Mourinho, o Cristiano Ronaldo e agora tu, este pobre país nem o galo de Barcelos conseguiria afirmar como imagem de marca no exterior.

Para que saibas e não desanimes, há muita gente aqui em solo pátrio a torcer por ti porque, apesar de não terem emigrado como tu, também se fartaram de trabalhar para serem ricos.
É claro que também sofrem dos mesmos ataques infames: Dizem por aí que beneficiam das negociatas obscuras, que são corruptos, que se servem da política em benefício próprio e até, imagina, que cometem crimes puníveis com penas de prisão mas que nada lhes acontece.

O que dizer de tudo isto, caro João, se não que são uma corja de invejosos?

Estou certo que continuarás a dar o melhor por ti próprio e pela imagem de Portugal no estrangeiro.

Força, João! A rapaziada segue atenta o teu sucesso.

sábado, 21 de junho de 2008




Chegasse enfim a coragem

Pediria ao vento norte
Ás sereias de Ulisses
Que levassem meu clamor
Para dizer aos que me amam
Tudo o que não lhes disse

Chegasse enfim a coragem

E correria o mundo sem mapa e sem destino,
Sem horas ou compromisso,
Sem antes ou depois, só isso!

Chegasse enfim a coragem

E era o herói por um dia,
Cerrava os olhos molhados
De lágrimas de alegria
E diria, diria

Diria que o amor,
Que as palavras não dizem
Não é vão, é clausura
É sentimento contido
É fogo, ardor, amargura

Chegasse enfim a coragem

Para libertar meu grito
Soltar de vez meu lamento
E dizer-vos que o amor é sorte
Que me libertará do tormento

Chegasse enfim a coragem

De dizer aos que me querem
Que os silêncios são chama
Fogo que me consome
Gelo que a voz tolhe
Muros a quem me ama

Chegasse enfim a coragem

De libertar minha pena
De escrever ébrias estrofes
Nunca ditas mas sofridas
Cantadas p´ra ti num poema


Carlos Borges - Jun´08

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Despudor

Consta que um dia um alto quadro da General Motors falou com o presidente da Companhia acerca da contratação de um executivo. O homem tinha altas qualificações académicas, um curriculum extraordinário e um QI elevadíssimo. Havia um pequeno problema com este executivo: Tinha uma personalidade especial e o relacionamento com os outros não era fácil. O presidente da GM terá então respondido:

- Meu caro, esse senhor não nos interessa porque este negócio é feito por pessoas e, alguém que não se consegue relacionar com elas, não pode trabalhar aqui.

Esta pequena história ilustra uma das facetas de um gestor: O bom senso. Sem bom senso não é possível dirigir por mais competências técnicas que se possuam.

A proposta da ERSE para que o valor das facturas incobradas pela EDP sejam diluídas nas facturas dos clientes bons pagadores é de tal forma ridícula e desprovida de bom senso que, só o facto de alguém se ter lembrado do o propor, deveria dar lugar ao seu despedimento por total incapacidade para ocupar o lugar que ocupa. É uma ideia peregrina que revela despudor e um total desprezo pelos consumidores. Esta gente é a mesma a quem pagamos salários principescos e indemnizações indecorosas quando se vão embora.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Simples mas bonito, como o são as coisas simples

Poema do Homem Só

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

Rómulo de Carvalho sob pseudónimo de António Gedeão

quinta-feira, 12 de junho de 2008

terça-feira, 3 de junho de 2008

Viver

Numa entrevista ao “Expresso”, Sobrinho Simões, um dos mais destacados investigadores portugueses na área das ciências médicas, afirmou que vivemos mais do que devíamos. Ao que parece o ser humano não foi “programado” para viver tanto tempo e só os avanços da medicina permitiram prolongar a nossa longevidade para além dos limites que a natureza nos impôs. No entanto, segundo o investigador, ao tentar adiar o inevitável, a ciência abre caminho a uma espécie de «morte em vida» porque, se é possível evitar completamente a dor física e até prolongar a vida, não é possível eliminar a dor psicológica de alguém que, apesar de estar vivo, perde mobilidade ou vê as suas capacidades cognitivas diminuídas de tal forma que o adiamento da morte lhe traz outra forma de sofrimento.

A inevitabilidade de um ponto final nas nossas vidas é algo que nos assusta. Evitamos pensar no assunto para não vivermos angustiados. A morte só toca na porta ao lado, nunca na nossa, e quando nos vemos ao espelho não reconhecemos que envelhecemos. Só que não há volta a dar: O tempo faz de nós o que quer e a única coisa que podemos fazer com ele é aproveitá-lo. Estamos condenados a viver a única vida que temos e por isso só nos resta desfrutar dela ao máximo. É a única parte que nos compete, o resto é com a natureza.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Dois mundos

O Real Madrid propõe-se pagar a Cristiano Ronaldo 82 Mil euros por dia! É o mercado a funcionar, dizem. O valor é astronómico e contrasta com as duras realidades que todos conhecemos um pouco por todo o mundo, Portugal incluído. Ronaldo não tem culpa nem tem que se sentir culpado. É o que lhe propõem e não lhe compete a ele salvar o mundo ou torná-lo mais justo. Outra coisa é o que pode fazer com o dinheiro e se utiliza, ou não, parte dele para ajudar os outros. São questões éticas e de consciência que a cada um dizem respeito.

A questão principal é a de sabermos como chegámos até aqui e onde isto nos vai levar. Há qualquer coisa de irracional na nossa sociedade e um dia esta irracionalidade vai ter consequências. Tive um professor na faculdade, Adriano Moreira, que costumava dizer : “Se os ricos não se preocuparem com a saúde dos pobres, um dia os pobres tratam da saúde aos ricos”. Vinda de um dos mais brilhantes pensadores portugueses, a frase dá que pensar.