quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Fim

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De onde vieste ?
Quem te mandou ?
Porque vieste ?
Que feliz estou

Quem és tu ?
Verdade, mentira , sonho fugaz ?
Serás um engano, um anjo da guarda?
Não sei responder mas tanto me faz

És tú, és o que és
Eu sonhei-te assim e assim te quero
Vivo o sonho doce, estou a teus pés
Ás vezes perdido num cruel desespero

Contigo partilho o que sou
Apresento-me ao mundo como cheguei
Despido, sincero, digo - aqui estou!
Sou o que sou, não o que serei

Chega o ocáso já a noite vem
Oiço o vento norte anunciando a partida
Sinto um frio gélido, não quero ninguém
Abrigo-me no manto de memórias perdidas

Sei que logo à noite o tormento virá
Embriagado em memórias viajo até ti
Não sei quem te tem , o que te dirá
Crua é a saudade da paz que vivi

É chegada a hora de um final adiado
Vence o destino a batalha final
O aço da espada de gume afiado
No calor da luta o golpe é brutal

Jazo na campo inerte, ferido
Ganhou o destino, sucumbo, é o fim
Cerro agora os olhos e sonho contigo
Afagas-me o cabelo, sorris para mim

Lá longe onde estás ouves o clamor
A voz delirante que por ti reclama
São ecos distantes de poemas de amor
Que em agonia minha alma declama

E quando numa fresca manhã de Abril
Uma brisa suave percorrer tua pele
Não temas, sou eu que num sopro gentil
Beijo o teu corpo com gosto de mel

Carlos Borges

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Asas

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Abro as asas ao vento
Asas do desejo vôo para ti
Sinto a humidade quente do teu beijo
Guerra e paz, inquietude, desejo

Vôo contigo para longe
Atravesso desertos rios e mares
Enfrento tempestades, maldades, o mundo
Mas em ti repouso num sono profundo

Sonho com mares bravos, revoltos
O azul profundo, vertiginoso, abissal
Aventuras milenares, herois e vilões
Odisseias de encantar,odes, harpas e belas canções

Sou herói, personagem principal
Destemido guerreiro monto meu alazão
Travo batalhas luto contra mim
Sei que já cansado voltarei a ti e chegará o fim

Sou fraco, cobarde,actor secundário
Transporto comigo as penas do mundo
Temo inseguro o que virá depois
Tu és porto de abrigo e o mundo é a dois

O sonho acaba enfim acordo
O sol do fim da tarde beija os meus olhos
Vejo o castanho terno dos teus
E sei que o belo é criação de deus

Partes calmamente
Silhueta esbelta, ave elegante
Detens-te um momento, olhas para mim e sorris
Aceno-te ao longe e oiço uma voz que diz “está feliz”

Pergunto ao mar que correu o mundo
Se viu a ave bela voar sobre si
Pergunto à chuva e ao canto do vento
Nada me dizem segue o lamento

Sei que lá longe em paragens incertas
Por um breve instante, momento fugaz
Recordas os beijos, o que disse baixinho
Vagas memórias terno carinho

Sinto a calma plena, tratado de paz
Doces lembranças, nostalgicas sensações
Recordações entranhadas, fazes parte de mim
Estás longe, sinto-te perto, não chegou o fim

Carlos Borges

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

É Natal

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Mais um Natal, mais um ano, mais votos de feliz Natal, mais desejos para o ano novo, mais promessas nunca cumpridas, mais sonhos adiados, mais prendas para uns, mais pobreza para outros, mais brilho nos olhos de uns, mais ranho no nariz de outros, mais afectos para uns, mais solidão de outros.

É Natal!

Que não percamos a lucidez e o olhar critico sobre o que nos rodeia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A idade da inocência

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Minha mãe, quem é aquele pregado naquela cruz ?
Aquele, filho, é Jesus
É Deus, é quem nos cria
Quem nos manda a luz do dia
E fez a terra e os Céus

Esta inscrição num painel de azulejos colado no cruzeiro daquela terra granítica andou comigo uma vida inteira. Volta e meia vinha-me à cabeça este pequeno excerto de um poema que só recentemente soube ser da autoria de João de Deus. Não sabia quem era o autor da pequena estrofe nem tinha curiosidade em saber e, no entanto, durante anos a fio, de vez em quando, lá surgia de novo “ Minha Mãe, quem é aquele pregado naquela cruz…”

Só mais tarde percebi que o pequeno excerto do poema era a chave que abria o baú das minhas memórias de infância. Os meses de Verão passados nos vales sobranceiros à Serra da Estrela onde os dias quentes e as noites mornas, sob um manto infinito de estrelas, pareciam saídas de um livro ilustrado de histórias infantis.

Rumava à Beira Alta no início das férias do Verão com um pequeno saco de roupa e uma mala gigante cheia de planos de aventuras infindáveis. A tribo esperava-me, as águas do Mondego também, e os pássaros, e os ninhos, e aquela cabana feita de mimosas no ano anterior, e a estufa junto ao cruzeiro onde haveríamos de voltar a empanturrar-nos com os chouriços, o pão e o vinho subtraídos ao meu avô, com a fineza matreira de foragidos.

Os nomes de baptismo nada significavam, as alcunhas eram a única prova de identidade: Calhau, Piriquito, Marreco, Vitorino, Charlot, Malato. Não havia ricos ou pobres, bonitos ou feios, espertos ou burros. Hierarquias só as que se impunham naturalmente por feitos realmente importantes: “Achar” ninhos, fazer as melhores fisgas, ser listo no arremesso de pedras ás carochas que teimavam em desafiar-nos agarradas aos sobreiros.

As águas tépidas do Mondego engrossavam pelas encostas da serra e eram morada de peixes enormes que nunca víamos mas que existiam, de certeza que existiam, e um dia algum deles havia de nos calhar em sorte na cana de pesca, ou vir ao de cima de barriga para o ar com o ventre rebentado por um morteiro de foguete.

À noite executavam-se planos para aligeirar a carga do pessegueiro de alguém que na noite anterior tinha cometido o pecado mortal de se gabar, no café do Delfim, que não havia na terra árvore igual.

Os dias passavam como páginas de um livro folheadas devagar.

Mas o tempo não parou e levou consigo os risos e a inocência de uma infância feliz passada na Beira Alta, terra de Aquilino, que tão bem retratou aquelas gentes com vidas forjadas na adversidade, nas agruras e no trabalho árduo. Terra de gente franca e meninos inocentes ( não o são todos os meninos? ).

Os sorrisos brancos estampados em caras rosadas e resplandecentes deram lugar a rostos enrugados, enegrecidos pela torreira do sol. Vieram as mulheres, os filhos e os dias sem horizonte. Quase todos seguem hoje as pegadas dos pais: São pedreiros, lavradores, ou passam os dias em fábricas a executar tarefas repetidas vezes sem conta, de ritmo certo, compassado, como os ponteiros de um cronómetro. As cervejas bebidas à noite no café de sempre, dilata-lhes o ventre e liberta-os, por momentos, de uma vida que pouco mais lhes oferecerá. Os seus dedos grossos e calejados nunca escreveram em teclas de computador. Nada sabem de política ou de economia, de internet ou de acções da bolsa.

As conversas que temos hoje, nas esporádicas visitas que faço aquela terra perfumada pelas brisas descendentes da serra, resumem-se a um cumprimento vago ou a uma curta conversa que resgata ao tempo memórias dos tempos de criança.
- Lembras-te daquela noite em que estávamos todos pendurados na cerejeira do Zè Rato e ele cá em baixo a dizer que nos ia dar uma coça?
Por momentos desaparece a expressão grave daqueles rostos enrugados e os olhos voltam a iluminar-se tal como eu os lembro em criança. Contemplo-os com a ternura de um irmão que um dia se foi embora para uma grande viagem, que correu mundo e viu coisas que eles nunca viram mas nada do que fez ou viu o fez tão feliz como eles fizeram.

Talvez um dia, noutro lugar, possamos voltar a brincar em campos cobertos pelo manto das geadas de Setembro. Talvez voltemos a soltar gargalhadas inocentes de meninos abençoados por Quem nos manda a luz do dia e fez a terra e os Céus.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

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Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.

Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Fados

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O filme "Fados" de Carlos Saura apresenta-se numa espécie de documentário musical e, mais do que uma obra centrada no fado, é uma viagem pela portugalidade. É ao mesmo tempo uma mistura de música, cor, sentimentos, emoção e do «sentir» português.
Uma obra muito interessante de um cineasta espanhol. Vale pelo que é mas, se assim não fosse, valeria por três ou quatro momentos marcantes, como o são, a recriação de uma casa de fado vadio, um dueto de Mariza com um cantor flamenco ou Chico Buarque soberbamente acompanhado por Carlos do Carmo em voz off .
Ver!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

E agora ?

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O assunto do momento é a crise, a crise económica, entenda-se! Ninguém fala da crise de valores, da crise da falta de ideias, da crise provocada pelo pensamento único baseado na busca da felicidade assente nos bens materiais, da crise de ideais, da crise do exercício da cidadania e de tantas outras crises que são, do meu ponto de vista, a raiz da outra, da crise económica.

Em momentos de aflição temos a tendência de disparar em todas as direcções e de encontrar culpados para os males que nos afectam. Importa, no entanto, reflectir um pouco e encontrar as causas profundas, e não visíveis, do problema.

A ganância e desonestidade de alguns agentes económicos, embora condenável, é uma peça de um puzzle que representa um retrato social. Esta gente gananciosa e desonesta contribuiu para alimentar uma máquina consumista de que todos fizemos parte.

Quisemos casas que não podíamos pagar, carros maiores que os do vizinho, plasmas do tamanho de ecrans de cinema, férias nas Caraíbas, PSP´s para os nossos filhos, telemóveis de última geração e outros sinais que nos garantiam status social e acesso ao grupo da frente, dos ricos, dos elegantes, dos charmosos. Falar de valores passou a ser embaraçoso e “meio estranho”, falar do Blackberry, isso sim, é viver neste mundo global, pós-moderno, onde se respira bem estar e prosperidade, onde a possibilidade de aparecer numa qualquer revista cor de rosa pode estar mesmo ali, ao virar da esquina. O crédito fácil e relativamente barato foi o passaporte outorgado e carimbado para este conto de fadas.

Vendo-nos ávidos de consumo, o sistema encarregou-se de nos satisfazer. Nós pedimos, eles deram. Só que o sistema colapsou e, ou muito me engano, ou vivemos momentos de mudança de paradigma social. Tão depressa as coisas não voltarão a ser como eram. É melhor que nos habituemos à ideia.
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